Sim, ela pode. Aos 28 anos, do alto de uma dezena de prêmios Grammy e canções no primeiro lugar da parada americana, Beyoncé deu um tempo na excursão mundial “I am… Tour” para, em 2 de agosto de 2009, fazer um show mais intimista. O resultado está no DVD “I am… yours/ An intimate performance at Wynn Las Vegas”, lançado pela Sony, como aperitivo para a turnê que chega ao Brasil em fevereiro.
No documentário de 23 minutos “What happens in Vegas…” – único extra do DVD -, codirigido pela própria, a cantora diz que procurou fazer uma apresentação desplugada, “sem Pro Tools, cenários suntuosos de Las Vegas ou efeitos à la Cirque du Soleil”. A ideia, sintetizada em outra fala, era “um microfone e a banda”. Mas, na prática, o que ela faz é, usando de um mote do produtor Ezequiel Neves, um “intimismo com trombetas”.
Beyoncé e sua grande banda, totalmente composta por mulheres, ganham o reforço de um naipe completo, e também feminino, de cordas, mais um grupo de bailarinos (de ambos os sexos), para um espetáculo ambicioso: são dois atos (divididos em muitas “cenas”) e um intervalo, em cerca de 1h40m de duração, mas também com muita conversa jogada fora para o público.

Com um vestido de renda, de Jean-Paul Gautier, sobre um collant cinza, Beyoncé surge cantando em meio à plateia do Wynn Encore Theatre e desce até o palco, cumprimentando alguns felizardos no trajeto. Após essa “Hello introduction”, que abre o primeiro ato (“Intimate”), ela apresenta uma sequência de sucessos em roupagem “acústica” – na verdade, apenas sem teclados eletrônicos, substituídos por piano de cauda e cordas, mas com baixo e guitarra plugados nas tomadas. Algumas das canções são coladas, caso de “Sweet dreams meddley” (com “Sweet dreams”, “Dangerously in love” e “Sweet love”) e “If I were a boy” (com “If I were a boy”, “California love” e “You oughta know”), com predominância de baladas. Mesmo que vindo de diferentes compositores e parceiros, o r&b de Beyoncé se resume a dois formatos: baladas xaroposas e batidas dançantes. Nestas, como mostra em “If I were a boy”, além de esbanjar seus dotes vocais, trabalha o corpo exuberante e torneado em aeróbicas coreografias, sacudindo sem parar os longos e alisados cabelos. Dá para cansar até quem a assiste.
O programa melhora no “Intermission”. Após dizer que suas principais influências foram Aretha Franklin, Josephine Baker e Ella Fitzgerald, apresenta “Deja vu jazz meddley/ It don’t mean a thing (If it ain’t got that swing)”. Delirante sequência de vocais scats para jazzwoman alguma botar defeito, improvisando em temas de Duke Ellington (“It don’t mean…”), Charlie Parker (“Ornithology”) e sua “Deja vu”, e que é fechada por três dançarinos num número de sapateado ao som de “Tap sequence” (Gillespie).
O segundo ato, “Storytelling” (“Contando história”), também mantém o interesse, mesmo daqueles que não são seguidores de Beyoncé Giselle Knowles. Em sua terceira troca de figurino – agora um maiô preto de lantejoulas, como todos os outros seus e os da banda, criação de sua mãe -, faz um retrospecto de sua vida. Nascida em Houston, Texas (4 de setembro de 1981), descobriu aos 5 anos que queria ser cantora ao ouvir The Supremes e Jackson 5. É a deixa para um tributo a Michael Jackson, em “I wanna be where you are”. Aos 9 anos, tendo o pai como empresário, formou com amigas o que viria se tornar o Destiny’s Child. Obviamente, nessa parte, pula as disputas judiciais com ex-integrantes do grupo e emenda sucessos como “No, no, no”, “Say my name”, “Bootylicious” e “Survivor”.
A “cena três” foca a carreira solo, a partir de 2001. Beyoncé conta que ao apresentar à gravadora as canções de seu primeiro disco, os executivos disseram que não tinha um sucesso sequer: “Eles estavam certos, não tinha um, e sim cinco hits!”. Na época, também começava a brilhar em Hollywood: entre outros papéis, foi a Foxxy Cleopatra em “Austin Powers: O homem do membro de ouro” (2002), a protagonista do musical “Dreamgirls” (2006) e viveu a cantora de blues Etta James em “Cadillac Records” (2008). Há também uma fala dedicada ao “amor de sua vida”, o rapper e empresário Jay-Z. Cada momento é ilustrado por seu respectivo sucesso: “Work it out”, “Bonnie & Clyde”, “Naughty girl”, “Get me bodied”… Antes de fechar o show com a reprise de “It don’t mean a thing”, a “cena quatro” traz apenas um sucesso, “Single ladies (Put a ring on it” (do último CD de estúdio, “I am… Sasha Fierce”), que é introduzido por “Electric feel”, do MGMT, duo pop-disco-psicodélico contemporâneo. Antenada e esperta essa Beyoncé, que, no documentário, revela: “Quando trabalho, não como, não vou ao toalete. Sou uma máquina”.
Assinado por Antônio Carlos Miguel