Home Entrevistas traduzidas de Beyoncé para revistas Allure – Fevereiro 2010

Allure – Fevereiro 2010

Revista: Allure
Fotos: Michael Thompson
Edição: Fevereiro de 2010
Resumo: Beyoncé fala sobre sua vida pessoal e sobre sua segunda turnê mundial, I Am… World Tour
Tradução e adaptação: Roberta Lessa
Música dela mesma

Beyoncé está casada, mas ainda canta hinos paras as solteiras; tímida, mas ousada no palco. Agora, ela encontrou equilíbrio entre essas contradições.

É quase certo que, se você mora num local que tenha fornecimento de eletricidade, você já tenha visto Beyoncé na TV, em seus filmes, no seu iPhone – e talvez até mesmo em carne e osso. No último ano, ela esteve em mais de 110 cidades para sua turnê “I Am…”. Beyoncé parece estar em todos os lugares. Mas, na verdade, existe um lugar onde ela não está – e é isso que a difere das outras celebridades. Esse lugar são os tablóides. Há uma razão para isso. “Eu sinto que nasci para entreter, mas eu quero que minha música e meu talento falem por eles mesmos,” diz a cantora, vestindo roupa de ginástica com capuz e se esticando em uma cama do seu ônibus de turnê.

“Eu não quero que minha vida pessoal, que meus erros, meu casamento ou qualquer outra coisa que seja interfiram quando eu estou no palco. É quando eu me sinto mais confiante, mais em controle.”

Em seu último álbum, I Am… Sasha Fierce, a estrela expôs seu alter-ego de uma forma que ela evita fazer consigo mesma. Mas, ultimamente, ela têm conseguido transferir esse poder de controle para sua vida fora do palco. “Sasha Fierce é meu alter-ego, é o meu lado que é mais animal e forte e destemido, e eu deixo ele tomar conta de mim quando estou nervosa ou tímida,” diz a cantora, que está no ramo desde os sete anos. “O interessante é que eu não preciso mais da Sasha, porque eu cresci e agora sou capaz de combinar as duas personalidades. Eu quero que as pessoas me vejam. Eu quero que vejam quem eu sou.”

Em outras palavras, você não a verá falando sobre o marido, Jay-Z, na OK! Magazine, mas Beyoncé finalmente está pronta para mostrar o que se passa com a mulher mais trabalhadora do show bizz. Com apenas 28 anos, a  cantora e compositora foi líder de indicações no Grammy 2009 – já tendo ganho 10 deles, sem mencionar os seus fãs que incluem um príncipe (Charles) e um presidente (Barack). Sua interpretação de Etta James em Cadillac Records trouxe elogios da crítica especializada; até mesmo Meryl Streep comentou sobre o assunto. “Meryl disse o quanto ela gostou de meu desempenho e o quão bom ele foi,” diz Beyoncé, ainda incrédula. “Quero dizer, isso vindo da Meryl Streep é…”. E ela engasga. “Eu fiquei surpresa dela ter, de fato, visto o filme.”

Há poucas coisas que Beyoncé ainda não tenha conquistado. Ela até  mesmo colocou uma palavra no dicionário Oxford. “Bootylicious: Mulher que tem destaque no aspecto físico; sexualmente atraente; sexy; com curvas.” “Eu ainda não acredito nisso! É hilário,” Beyoncé diz, antes de analisar sua contribuição para a língua inglesa, como ela faz com todos os aspectos de sua carreira: “Na verdade, eu gostaria de ter criado outra palavra. Alguma que não tivesse “bunda” no meio.

Nesse mês, ela lança um novo perfume, Beyoncé Heat, da Coty, uma  mistura terrosa de Red Vanilla Orchid e mel. Também aqui, Beyoncé mostra seu amadurecimento. “Eu já fiz campanhas para outras duas fragrâncias, mas não fiz parte do processo de criação. Dessa vez, é finalmente a minha fragrância, e é algo que eu vou poder passar aos meus filhos.” Esse tema é importante para ela por causa das lembranças que tem da mãe. “Eu cresci vendo minha mãe passar e deixar seu perfume por onde fosse – e isso sempre me deu uma sensação de conforto. Eu sempre achei lindo ela ir, mas deixar para trás o seu cheiro.” É claro, isso não quer dizer que a fragrância é algo somente para mães; o nome não foi escolhido por acaso. “O nome Heat (Calor) soa simples – soa quente e sexy, como o Texas. Soa sedutor.” Ela adiciona: “Eu queria ter certeza de que não era chamativo demais, porque eu sou muito reservada, e eu não queria que fosse algo que todos pudessem sentir. Você tem que dar permissão para que alguém entre no seu espaço pessoal.”

Além do frasco, a essência de Beyoncé  é difícil de se descrever. Mas isso parece estar mudando. A estrela recentemente dirigiu e produziu um DVD de sua primeira performance em Las Vegas, que mostra algumas cenas dos bastidores de todo o trabalho que ela faz. Em um número inspirado nos musicais da Broadway, ela conta a sua trajetória desde o início até alcançar a fama e o sucesso, o que resulta num show-documentário intitulado “I Am… Yours”.

“As pessoas só conhecem as músicas que tocam nos rádios, os vídeos, as premiações e não têm idéia do trabalho duro e dos sacrifícios que foram necessários para que eu chegasse onde eu estou agora,” ela diz. “Eu realmente quis explicar a minha história.”

A família Knowles, como a cantora mostrou, não era como os Jacksons, e essa história não tem nada a ver com enriquecer rapidamente. Beyoncé nasceu em Houston, a primeira filha numa família que podia pagar empregada, ter um Jaguar na garagem e pagar escola particular. Sua mãe, Tina Knowles, era dona de um salão de beleza popular, onde Beyoncé e sua irmã mais nova, Solange, cresceram na presença de pranchas de cabelo e fofoca da boa. O pai delas, Mathew, era um executivo de vendas da Xerox antes de ser o empresário das Destiny’s Child.

Aos nove anos, Beyoncé costumava ir a concursos de talentos com o ainda chamado Gyrls Tyme. Ela tinha dez anos quando começou a gravar músicas, doze quando o grupo assinou seu primeiro contrato e quinze quando Mathew percebeu que o futuro da filha era mais brilhante do que o seu próprio na Xerox. Em 1998, com sua orientação, o grupo, agora chamado Destiny’s Child lançou seu primeiro álbum, homônimo.

O resto é história no Hot 100 da Billboard. O Destiny’s Child se tornou o grupo feminino de maior vendas de todos os tempos com hits cheios de estrogênio como “Say My Name,” “Independent Women,” e “Survivor”. Mas bem antes dos ônibus de turnê e dos jatos privados, o grupo ensaiava suas performances no quintal da casa dos Knowles e as integrantes criavam seus próprios figurinos para os shows. Seria normal se elas pedissem a Tina dicas sobre cabelos, certo? Não exatamente.

“Eu lembro de quando eu comecei a fazer meu cabelo sozinha – eu cortava franjas, e comecei a enrolar meu cabelo e a passá-lo, literalmente, com um ferro.” Espera, como é que é? Beyoncé ri em voz alta. “Nós, do Destiny’s Child, a gente colocava o cabelo na tábua de passar e passava o cabelo, o que é doido de se fazer! Minha mãe dizia: “Não posso deixar isso por conta de vocês, vocês estão destruindo seus cabelos!”

Mais de uma década depois, Beyoncé raramente tem seu cabelo desarrumado. Ela é perfeccionista, tanto aplicando rímel quanto dando entrevistas. Quando seu agente nos interrompe para avisá-la que só temos mais alguns segundos de conversa, ela parece genuinamente preocupada. “Oh, Deus, foi tão rápido,” ela diz. “Eu posso te dar mais dez minutos.” No final, acabei recebendo mais quatro avisos para me adiantar, e a cantora extendeu nossa entrevista tantas vezes quanto pôde, provando sua própria observação de que, “quanto mais talentosa uma pessoal, mas legal ela é.”

Sasha Frere-Jones, crítica de pop music do The New York Times, uma vez a chamou de “aluna nota A de pop,” um título que é certo, se não completo. As influência de Beyoncé incluem Fela Kuti e Barbra Streisand. Por detrás de sua persona glamurosa está uma ética de trabalho muito puritana. Ela regularmente analisa os vídeos de suas performances para que as próximas sejam ainda melhores. Lidando dessa forma com a fama, ela está mostrando o caminho para as cantoras mais jovens, como Rihanna, e até mesmo a sua irmã, Solange. Beyoncé é o exemplo de Sasha e Malia, graças a Deus.

É difícil ser tão… perfeita? Um assunto comum em entrevistas, ela tem a resposta perfeita para isso. Bem, quase.

“Acredite em mim, eu não sou perfeita de jeito algum,” ela diz, sabiamente respondendo a questão. “Mas é difícil viver sabendo que as pessoas acham que você é perfeita.” Uma pausa. “Eu não devia dizer isso, porque parece loucura. Mas é difícil quando você está na televisão e você está sempre vestindo belos vestidos e sempre tem que ser politicamente correta.”

Em relação ao seu corpo, com exceção dos quilos que perdeu para o papel em Dreamgirls, ela mantém uma forma forte, não magérrima. “Eu sempre digo que não quero perder minhas curvas,” ela diz. “Eu gosto de curvas definidas. Você pode fazer o exercício que for, mas perder muito peso ou ser muito musculosa… eu gosto que as mulheres pareçam femininas.” Na estrada, ela segue dieta de peixe grelhado, vegetais e  salada. Ela se permite um dia de besteiras por semana, que é quando ela pode comer o que quiser.

(Foto de Beyoncé criança)

Foto do livro do ano escolar, com nove anos

Allure: Sua mãe fazia seu cabelo?

B: Com certeza, sim. Minha mãe amava Thierry Mugler, e eu tinha alguns suéteres e moletons dele – o que é engraçado agora, vinte anos depois, porque eu trabalho com ele na turnê.

(Foto com Príncipe Charles)

Com Príncipe Charles no Fashion Rocks, em Londres

“Foi hilário, porque houveram rumores que eu estava namorando ele, ou o filho dele. Ou os dois! Ele foi a um de meus shows. Ele dançou enquanto eu me apresentava e eles tiraram fotos… Isso foi no dia seguinte, e nós estávamos rindo por causa disso.

(Capa da Sports Illustrated)

Sports Illustrated Edição de Roupa de Banho

“Nós estávamos lançando nossa linha de roupas de banho e minha mãe desenhou todos esses biquínis, então foi bem legal: eu fui a primeira cantora a ser capa da Sports Illustrated e lancei a linha de biquínis. O oceano me acalma. É meu lugar favorito quando estou estressada.

(Foto com Justin Timberlake e elenco do SNL)

No Saturday Night Live com Justin Timberlake, Bobby Moyniah e Andy Samberg

“Oh, Deus. Justin entrou no meu camarim com um roupão e…aquilo. Ele estava usando saltinhos, e então abriu o roupão e colocou a perna para fora, rebolou e disse “E aí?”. E eu respondi “Yeah!”. Como eu poderia negar com aquela roupa? Foi um choque – eu não sabia que eles queriam que eu fizesse uma participação. Quando eu disse que queria ver O quadro, ele apareceu com essa roupa!”

(Foto com Michael Jackson ao fundo)

No palco da Philips Arena, em Atlanta

“Eu cantava algumas músicas de Michael em meus shows, antes dele morrer. ‘Halo’ me lembra dele. Então, no final do show, eu lembrei que o pai dele estava na platéia algumas semanas antes dele morrer, e foi realmente emocionante para ele ver aquilo. Michael Jackson é meu herói”.

(Foto com Michelle e Barack Obama)

Se apresentando no Neighborhood Inaugural Ball

“Eu nunca assisti uma performance minha tantas vezes na vida. Eu queria reviver aquele momento várias e várias vezes, e eu assisti à apresentação umas cinqüenta vezes. Eu não podia acreditar que eu estava lá.

(Foto com Adrien Brody)

Em Cadillac Records com Adrien Brody

“Esse é o meu momento de maior orgulho em se falando de filmes. Foi o momento no qual eu mais me expus, porque foi algo que eu nunca tinha passado por. Foi difícil para mim chegar ao ponto. Quando eu assisto, tenho muito orgulho de mim mesma. De verdade.

(Foto com Jay-Z)

Com o marido Jay-Z em um jogo dos Knicks em NY

“Eu gosto de basquete – quero dizer, mais do que os outros esportes. Mas amo ir aos jogos, é melhor do que ver pela televisão.”

(Foto com Tina Turner)

Com Tina Turner no Grammy Awards em Los Angeles

“Foi como ver meu futuro perfeito. Assim, eu poderia ter 70 anos e continuar em turnê pelo mundo e ter o espírito que ela tem, esse espírito jovem. Quero dizer, ela estava dançando melhor do que eu naqueles saltos! Foi uma grande experiência de aprendizado para mim, e definitivamente me deu esperanças de que você pode fazer o que você gosta por quanto tempo quiser e ainda ser  positiva e quente e sexy. Ela é a melhor. Uma ótima artista.”

(Foto com Justin Timberlake)

Com Justin Timberlake no Fashion Rocks em NY

“Nós já havíamos trabalhado juntos no meu álbum e tínhamos respeito mútuo um pelo outro. O figurino era muito pesado. Pesava uns 60 pounds; eu mal podia andar nele. Eu descobri esse macacão e então torci para que coubesse em mim. Graças a Deus eu consegui”.

Nesse momento, ela está interessada em mostrar mais suas falhas. É um ato difícil para um perfeccionista, mas é uma jogada inteligente para um artista que não quer ser corrigida a cada escorregada. Essas escorregadas, afinal de contar, fazem parte da personalidade – são o que faz de nós, inclusive Beyoncé, humanos. “Alguns dias você simplesmente não tem vontade de ser uma celebridade,” ela diz. “Sabe, hoje é um desses dias.”

“Não me leve a mal,” ela continua. “Eu amo moda. Eu não sou o tipo de garota que só usa moletom. Eu não gosto de usar tênis. Eu nem me sinto confortável neles. Eu gosto de me arrumar, e eu cresci vendo minha mãe maquiar várias mulheres. Eu admiro o glamour das mulheres que tomam conta de si mesma. Mas, em alguns dias, você simplesmente não quer estar perfeita.”

Ter vivido a um dia viciada em heroína Etta James em Cadillac Records é um dos feitos dos quais Beyoncé mais se orgulha. Para se preparar para o papel, ela visitou uma clínica de reabilitação em Phoenix, para onde ela doou o cachê que recebeu pelo filme. “Foi mais recompensador do que qualquer coisa que eu já tenha feito,” a estrela fala do papel. “Foi um grande passo. Digo, minha gravadora não gostou da idéia de eu representar uma viciada em heroína, caída no chão. Isso vindo de alguém que nem fala palavrão. Foi bem libertador para mim. Eu me senti tão… livre. Algo como, se eu posso mostra isso no filme, posso me mostrar.”

Pouco a pouco, assuntos que antes não eram comentados começam a surgir. Beyoncé ainda é bem reservada quanto sua vida pessoal, mas fala ternamente sobre seus planos para criar uma família.

“Eu definitivamente quero ter um filho,” ela diz. “Mas, pelo que passo com meu sobrinho, eu sei que é um grande passo. Eu espero que estas coisas aconteçam naturalmente. Eu ainda não tive tempo para relaxar.”

Quanto mais velha fica, mais Beyoncé vê valor em ter tempo para si mesma. Depois da turnê, ela quer ir a alguns shows da Broadway e talvez aprender a cozinhar. Às vezes, é somente tirar os sapatos e andar na grama. Depois de anos viajando pelo mundo, somente agora ela percebe a importância de parar e descansar um pouco. Sempre que está em outro país, ela vai a um restaurante tradicional e tenta absorver o máximo de cultura que puder. No Egito, ela passeou pelo Mar Vermelho e andou de lancha, para longe das lentes dos paparazzi. Ela anda de bicicleta e às vezes não é reconhecida até que já tenha ido embora. A próxima vez que você jogar Copas on-line, saiba que você pode estar jogando contra ela. “Eu jogo com todo mundo, e eles me xingam tanto quando erro, até me expulsam da sala. Eu amo isso,” ela diz. “É realmente divertido, porque ninguém sabe quem eu sou”.

Um pouco depois das cinco da tarde em um dos últimos dias da turnê I Am…. Nessa manhã, quando acordou em Liverpool, Inglaterra, ela fez um tratamento facial. Nas próximas horas, terá seu cabelo e maquiagem feitos, conhecerá mais de cem fãs que estarão nos bastidores e rezará com a equipe. É isso que ela faz antes de entrar no palco para um show de quase 25 músicas, inúmeras trocas de roupas, muito rebolado e sacudidas de cabelo.

Então, onde exatamente Beyoncé irá se apresentar nesta noite? “Pare ser sincera,” ela diz, a voz arrastada e grave, “eu não faço a mínima idéia.”

Quando chegar na Arena, ela começará a transformação de roupas comuns para figurino de palco. “Eu faço minha própria maquiagem todos os dias,” ela diz. “No meu dia-a-dia, eu uso blush, gloss e rímel. Mas no palco, eu experimento cílios postiços e várias cores diferentes.”

Beyoncé é uma garota das garotas. E sua música são símbolos do poder feminino. “Eu sei que faço hinos, e acho que sou boa escrevendo-os,” ela diz. “Provavelmente as melhores músicas que já compus são sobre relacionamentos e troca de papéis entre homens e mulheres, e coisas pelas quais as mulheres passam. Cresci rodeada de mulheres, em um salão de beleza, e sempre tive compaixão com mulheres. Acho que precisamos umas das outras, e as coisas que me inspiram para escrever são aquelas que eu acho que as mulheres querem ouvir. Fico contente de ser a voz delas. Fico feliz de ser, de alguma forma, um exemplo”.

No Egito, uma das últimas paradas de sua turnê, grupos islâmicos protestaram contra o show de Beyoncé, chamando-no de “festa do sexo insolente” e “show de nudez” e que seria um atentado a “paz social e estabilidade” do país. Beyoncé não ouviu falar disso até depois do show. Durante o concerto, ela diz “fiquei orgulhosa de vez as mulheres levantando os braços e dizendo ‘to the left, to the left,’ algumas delas totalmente cobertas, mas cantando,” ela diz. “Eu sou a voz dessas mulheres, e isso me faz sentir que meu trabalho e minha música estão fazendo a coisa certa a ser feita, é algo além do rádio. Me dá arrepios pensar nisso: mulheres se sentindo poderosas, cantando cada palavra, com suas mãos levantadas, sentindo-se fortes.” Para a cantora, isso foi a prova de quão longe ela chegou.

Beyoncé ri e então fica quieta. “É para isso que eu estou aqui.”