Home Entrevistas traduzidas de Beyoncé para revistas Dazed and Confused – Julho de 2011

Dazed and Confused – Julho de 2011

Revista: Dazed and Confused
Fotos: Sharif Hamza
Edição: Julho de 2011
Resumo: Beyoncé fala sobre seu último ano e sobre planos para o futuro.
Tradução e adaptação: Roberta Lessa
A Vida Simples 

No ano passado, Beyoncé Knowles saiu em turnê e quase teve um colapso. Agora que ela volta ao mundo pop, Tim Noakes descobre como as férias da cantora mudaram a vida e a direção musical dela.

Do lado de fora de um trailer Winnebago estacionado em um terreno baldio no coração do Brooklyn’s Navy Docks, Beyoncé cozinha um pedaço de carne. O cheiro de bife chamuscado paira no ar da tarde de sábado, enquanto ela canta “Black Sweat”, de Prince, e dança no ritmo da música. Ao contrário do costumeiro em churrascos, ela está usando saltos altos, uma cintilante e prateada rede de cabelo Gareth Pugh, combinando com calças legging e top com estampa de pele de leopardo. “Esse é o guardanapo mais glamouroso de todos os tempos, é gangsta,” ela brinca, levando o tecido brilhante ao rosto. Em um apartamento próximo dali, uma senhorinha surpresa espia aquela cena surreal pela janela. Ela desaparece por um momento, talvez para checar se tomou a dose certa de seus medicamentos. Afinal de contas, não é todo dia que um ícone do pop aparece praticamente no seu jardim e começa a cozinhar – especialmente vestida da cabeça aos pés com roupas criadas por Tom Ford, Riccardo Tisci, Gareth Pugh, Haider Ackermann, Stefano Pilati e Marc Jacobs.

“Foi divertido! Consegui me conectar com a justaposição”, diz a cantora de 29 anos depois da sessão de fotos com o trailer. “Fazendo churrasco vestida de Gareth Pugh e usando saltos altos, isso é comum para mim… é! Mas quando eu faço uma sessão de fotos como essa, não fico receosa de usar peças fashion ou que mostrem um pouco mais de pele. Não tenho nenhum problema em entrar nos personagens que eu preciso interpretar. Obviamente, eu tenho meus limites, mas acho que essa é a beleza de ser mulher. Nós podemos ter diferentes personalidades e eu adoro ficar mudando entre elas.”

Sentada no sofá bege de sua casa-sobre-rodas, um ônibus de turnê de quinhentos mil dólares estacionado em frente ao trailer da sessão de fotos, Beyoncé parece relativamente pequena comparada à imagem de bootylicious que passa em seus vídeos. “Acho interessante as pessoas acharem que eu tenho muito mais curvas do que eu realmente tenho,” ela diz. “Definitivamente, eu não sou como as pessoas acham que sou. Todos os dias da minha vida aparece alguém para dizer ‘você é magrinha!’. As pessoas prestam mais atenção nisso do que eu mesma.”

Quieta, controlada e extremamente educada, ela está sentada em frente ao seu MacBook, onde vê o material produzido para seu clipe “Run the World”, no qual ela interpreta a líder de um exército de dançarinas que desafiam um time de homens da SWAT no deserto de Mojave. Multifuncional por excelência, ela edita algumas cenas do vídeo nos intervalos da sessão de fotos, do churrasco e da manicure e do cabeleleiro. É o conceito de “só durma quando estiver morto” que diferencia Beyoncé há uma década e meia.

Quando começou no Girl’s Tyme, e depois Destiny’s Child, era ela que sempre praticava as coreografias antes dos shows e lia a Bíblia ao invés de sair para dançar. Quando ela se tornou a primeira pop star solo do milênio, vendendo mais de 75 milhões de discos, esse sacrifício dos dias de folga pelo trabalho só aumentou. Ela sempre usou seu tempo livre para se dedicar a sua marca de roupas e linha de perfume, para se tornar uma grande atriz de Hollywood, para cantar para o presidente Obama durante o baile da posse, para casar com o rapper mais bem-pago do mundo, para criar uma organização beneficente e para, o mais cansativo de todos, trabalhar com Lady Gaga. É um milagre que ela não tenha se viciado em antialérgicos, já que ela tem alergia ao cheiro das rosas.

De qualquer forma, quando a turnê I Am… acabou de maneira espetacular em Trinidad no dia 18 de fevereiro de 2010, a diva, que memoravelmente cantou “desde meus quinze anos em cima desses estiletos comandando esse jogo”, percebeu que precisava tirar uma folga decente – pela primeira vez na vida profissional dela. Mais do que o cansaço de se apresentar ao vivo em shows de duas horas de duração em 97 estádios por todo o mundo, ela queria experimentar também como é apreciar as coisas simples da vida, como acordar todos os dias na cama com o marido ao invés de sozinha em mais um quarto de hotel. Então, depois de dirigir e editar o DVD da turnê I Am…, Beyoncé entrou em seu apartamento, desceu do salto alto e desapareceu da vida pública.

“Eu precisava de tempo para viver,” ela diz. “Eu tenho um contrato com a mesma gravadora desde os 12 anos e nunca tive mais do que um mês e meio de férias desde os 13. Eu trabalhei duro durante muitos anos e agora senti ‘Bem, por que não?’ Pude fazer as coisas mais simples e comuns da vida, como buscar meu sobrinho na escola, cozinhar, visitar alguns museus, ir a shows, a peças da Broadway, ir a restaurantes, sabe? Viver.”

Incapaz de ficar totalmente longe das turnês, ela acompanhou o marido nos shows dele, uma experiência que deu a ela a oportunidade de ficar um pouco nos bastidores, conhecendo outras culturas e, o mais surpreendente, de satisfazer a garota rockeira que vive dentro dela.

“Foi realmente interessante estar numa turnê sem ter que trabalhar. Eu pude ir assistir bandas como The Dead Weather, Thom Yorke, Muse e Rage Against the Machine. Ir a esses shows e ver as diferentes plateias foi como aprender uma nova cultura para mim. Eu aprendi muito indo a esses shows. Eles são tão diferentes da minha plateia. Os moshs, os fogos, tudo com tanta alma. Eu quero que as pessoas se sintam livres desse jeito quando escutarem minhas músicas! Eu ia adorar que as pessoas mergulhassem do palco nos meus shows. Ia ser demais. Quero dizer, eu digo isso, mas se isso realmente acontecer no festival de Glastonbury, eu vou ficar meio que “Ei, espera aí um pouquinho!”

Apesar da “wonder wall” (grande demonstração) de esnobismo do indie-rock quando Jay-Z se apresentou no festival de Glastonbury em 2008, nenhuma palavra foi dita contra a escalação de Beyoncé para aparecer no mesmo festival, nesse ano. Nem mesmo por Noel Gallagher (entenda).

“Ele (Jay-Z) realmente abriu muitas portas. Eu nunca teria pensado em me apresentar no Glastonbury se ele não tivesse ido antes. Acho que é diferente com a música pop, porque não é tão chocante como o hip-hop, então talvez as pessoas se sintam mais confortáveis de ouvir as músicas. Mas, ainda assim, estou nervosa. Mas, nesse momento, a minha vida se trata de entrar de cabeça nas mudanças e subir ao próximo nível, correndo riscos e mostrando minha coragem. Sem estar segura. Sem cantar músicas que pareçam com as que as outras estão cantando nas rádios. Basicamente, não fazer nada que os outros estejam fazendo, a menos que eu sinta vontade de fazê-lo. Eu quero fazer algo completamente diferente. Eu sinto que mereço essa noite do festival. Os riscos me empolgam.”

Correr riscos artísticos é algo que sempre marcou Beyoncé como uma renegada do R&B que se diverte na lama do pop comercial. De “Video Phone” e “Sweet Dreams” àquelas que definiram seu gênero como “Crazy In Love” e ‘Single Ladies”, sua habilidade de escrever inesquecíveis canções de amor, ódio e poder consolidou seu posto de inovadora musical. A gigante da indústria fonográfica Billboard acabou de conceder a Beyoncé o prêmio de Artista do Milênio, com homenagens de Stevie Wonder, Michelle Obama, Bono, Lady Gaga e Barbra Streisand. Justo dizer que Beyoncé foi além do seu sonho de se tornar a nova Whitney Houston.

Apesar disso, o lado de negócios da vida da cantora passou por algumas dificuldades. Alguns dias antes do ensaio de fotos para a Dazed, a mídia noticiou que um fabricante de videogames iria processar Beyoncé por ela ter quebrado um contrato com sua empresa, e que ela não seria mais empresariada por Matthew Knowles, seu pai, que cuidou de sua carreira desde o início. Se levarmos em conta as manchetes do final do ano passado que falavam sobre o show particular que fizera para os filhos de Muama Gaddafi e a censura do comercial de seu perfurme Heat no Reino Unido, a longa extensão de suas férias faz ainda mais sentido. Então a “cantora mais poderosa do mundo”, como eleita pela Forbes em 2010, deixou a fofoca da mídia afetar sua criatividade?

“De forma alguma,” a presidente das Corporações Beyoncé diz, sem nenhum tom de irritação quando esses assuntos foram citados. “Eu nem sabia que nós tinhamos essas fofocas rolando na mídia nos últimos três meses! Não sabia. Acho que esse que é o legal de passar um tempo com minha família e com meus amigos e com as pessoas que eu respeito e amo. Eu fico longe dessas loucuras. Sempre tem algo negativo sobre qualquer celebridade, se você procurar saber.”

Enquanto ela fala sobre as armadilhas de se ser uma celebridade, você percebe que, se ela tivesse que escolher entre mandar seu guarda-costas de mais de dois metros de altura atrás de um editor de um jornal ou do hacker que vazou seu single “Run the World (Girls)” antes do previsto, ela com certeza escolheria a segunda opção.

“Eu não tenho ideia de como eles conseguiram. É assustador, mas o que podemos fazer?” ela diz filosoficamente em seu sotaque texano. “Acontece com todo mundo. É chato quando é seu primeiro single e quando você não está preparada. As pessoas começam a julgá-lo sem que eu tenho apresentado o material a elas. Eu filmei o vídeo logo para poder prestar atenção em cada detalhe, sem pressa. As coisas fogem do controle, às vezes. É decepcionante, mas não se pode mudar o passado. Eu gravei essa música há nove meses e foi difícil escondê-la. E acabou vazando cinco semanas antes do que deveria. Pelo menos é melhor do que vazar nove meses antes, então eu não posso reclamar!’

A reprodução não autorizada da faixa produzida por Major Lazer fez com que Beyoncé tivesse que resumir cinco semanas de preparação em apenas uma, planejando suas apresentações em festivais de verão, decorando o texto do remake de A Star Is Born, dirigido por Clint Eatswood, e finalizando seu quarto álbum, que ela chama de “uma junção de tudo que aprendi em minhas viagens.” A ser lançado no final de junho, o disco é um mistura de baladas retrô poderosas e faixas de hip-hop que reproduzem o afrobeat de Fela Kuti, Soca e ritmos brasileiros. Chamado “4”, – dia do casamento com Jay-Z e o aniversário de ambos – o álbum traz as letras mais cruas e emocionais que Beyoncé já escreveu. A vencedora de 16 Grammy tentou, propositalmente, não fazer nada parecido com o que já havia feito. Até mesmo seu alter-ego Sasha Fierce foi deixado de lado.

“Eu não quero ouvir falar de ‘Single Ladies’ nem de ‘Crazy In Love’. Eu não quero ouvir. Acredito que algumas coisas acontecem naturalmente. Eu não preciso mais da Sasha Fierce. Eu não preciso mais dela. Eu sou Sasha Fierce. É interessante porque eu faço isso há tanto tempo que é fácil para mim entrar no ‘modo performance’. Eu vou de ‘garota quietinha, risonha e brincalhona’ a ‘ok, agora é hora de trabalhar!’ muito rapidamente. Eu não tenho que me preparar mentalmente para isso. Honestamente, eu estou mais interessada em mostrar para o público a pessoa sensível, apaixonada e cheia de compaixão que eu sou. Mais do que Sasha Fierce.”

É fácil perceber que o tempo em que Beyoncé passou longe do spotlight trouxe uma abordagem mais madura às questões pessoais e profissionais de sua vida. Depois de passar o dia com ela, ainda é difícil de acreditar que uma mulher com tanto equilíbrio e elegância ainda não tem nem 30 anos. Como ela se mantém calma no olho do furacão da mídia é difícil de saber. Somente para essa sessão de fotos, houve três cortinas de privacidade, um guarda-costas no telhado, de olho nos fotógrafos, uma mudança de locação de último minuto, dois ônibus de turnê luxuosos, um comitê de assistentes, um time de maquiadores e um guarda-chuva para servir de escudo durante a caminhada de três metros do seu Escalade até o ônibus. Não é de se espantar que ela deseje normalidade.

“Você quer saber uma coisa que ninguém sabe?” ela ri com o coração, como fez o dia inteiro. “Eu fico envergonhada nas boates quando eles tocam uma música minha. Quando eu vou a um clube, eu acabo dançando com uma parede de seguranças a minha volta. Não é nada divertido, né? É bem triste. Eu não vou muito a boates por causa disso! A menos que seja um lugar onde as pessoas não fiquem me encarando nem tentando puxar meu cabelo, eu não vou para a pista de dança. Sabe o filme do Jim Carrey, Show de Truman? É daquele jeito que você se sente sendo uma celebridade.”

Agora que o ano de férias não é nada mais que uma memória distante e que a rotina de trabalho 20 horas por dia está de volta, não se pode deixar de questioná-la se ser um ícone pop realmente vale todo esse sacrifício pessoal.

“Ser um ícone é meu sonho,” ela diz enquanto o MacBook pisca perto dela. “É o melhor elogio e traz muitas responsabilidades. Eu levo isso muito a sério. Sinto que cada vez que tiro uma foto, cada vez que eu me apresento nos palcos… tenho noção do meu legado. Tenho consciência de que tudo o que faço ainda estará aqui quando eu não estiver mais. Então eu respeito o fato de estar nessa condição. Existem certas coisas que eu não pude fazer por ter trabalhado tanto pelo meu legado e pela minha carreira. Eu sei disso mais do que qualquer um. Então eu levo isso tudo muito a sério;”

Mas ela ainda está tão empolgada para fazer músicas quanto estava há 15 anos atrás?

“É claro!” ela ri. “Sempre!”

 

Designs Divinos

Quatro dos designers que criaram as roupas para o ensaio da Dazed fazem perguntas à Beyoncé

Riccardo Tisci – O que é a primeira coisa que você faz quando acorda?

Normalmente eu tento ficar quietinha e meditar. Não meditar literalmente. Eu fico deitada na cama e penso sobre tudo que eu preciso pensar, além de tudo que eu aprendi no dia anterior. Nas últimas semanas, eu literalmente caí no sono com o Blackberry na mão porque fiquei acordada respondendo emails, criando planejamentos de marketing e analisando os números nas rádios. É triste! Minha família fica tipo “Ah, meu Deus!” Tiraram uma foto minha desacordada com o dedo na tecla ‘espaço’!”

Gareth Pugh – Você nasceu quatro dias depois de mim, o que significa que você é de Virgem. Que características de Virgem você tem?

Eu sou completamente virginiana. Me pergunto qual o signo dos outros designers. Eu gosto de pensar de formas alternativas. Eu não aceito “não” como resposta. Eu sou extremamente focada e crítica – às vezes até demais. Às vezes eu tenho que tomar cuidado com isso. Eu sou neurótica por controle. Eu presto atenção em detalhes. Quando eu faço algo, me entrego 100%. Tenho altas expectativas em relação a mim mesma e o mesmo em relação àqueles que estão a minha volta. Sempre fui assim, é tudo ou nada.

Stafano Pilati – Você acha que as mulheres têm as mesmas oportunidades de sucesso que os homens no mundo atual?

Acho que sim. Acho que o mundo está mudando e já mudou. Ainda temos, você sabe, coisas para mudar. Mas acho que as mulheres estão muito diferentes agora, nós temos nossos padrões e não aceitamos nada menos que as mesmas oportunidades. Eu sei que eu não aceito. Essa é a mensagem da minha carreira. Eu lembro de quando eu estava no Japão, depois de ter escrito “Independent Woman”, e umas meninas me disseram que essa música fez elas não gostarem de não ter uma carreira, um emprego e uma mente própria. É inspirador saber que essas coisas podem afetar a cultura pop dessa forma, e o jeito que as mulheres pensam. Às vezes existem coisas que nós temos que nos dedicar mais para conseguir. Às vezes não levamos o crédito. Mas estamos chegando lá.

Tom Ford – Você é tímida?

Eu era. Não acho que eu seja mais. Eu fico desconfortável quando eu não estou num palco ou numa sessão de fotos e muitas pessoas ficam olhando para mim. Isso me faz me fechar e ficar tímida. Fico feliz quando eu falo com as pessoas e posso aprender algo delas. Sou melhor em conversas de igual para igual. Eu fico tímida e intimidada com um grupo grande de pessoas. Em um jantar, espero que ninguém espere nada de mim. Quero desaparecer.

 

O TIME DOS SONHOS

The-Dream, produtor de Single Ladies e co-escritor de “4”, fala sobre sua colaboração musical com Beyoncé.

DaC – Como você acha que as letras do “4” mostram o crescimento pessoal de Beyoncé?

Quando você está no topo e todo o mundo está te olhando, eles esperam que você seja um super-humano. Acho que, se você perceber alguma vulnerabilidade vinda dela, é porque ela sabe que não precisa ser uma super-humana. Ela é uma pessoa muito amável e muito sensível – e essas coisas que as garotas são.

DaC – Você produziu Single Ladies. Você se sentiu desafiado a superar o sucesso anterior?

Não, porque as pessoas me disseram a mesma coisa depois de Umbrella. Eu não acho que você precisa superar nada, porque música é música e todas têm seu espaço e tempo. Você não pode competir com o lugar um tempo onde as pessoas estão. A B está provavelmente em uma das épocas mais vulneráveis, porque ela está vindo de uma coisa muito massiva. É por isso que eu amo tanto o novo disco. Ela trabalha tanto nas diferentes áreas dele, na produção, no canto e ela realmente faz o álbum de acordo com o interior dela. E eu tento me divertir com isso. É difícil com algo tão grande te perseguindo. Mas o jeito de conseguir chegar lá é não se preocupar com isso. Porque você nunca sabe quando o próximo grande hit está vindo.

Confira uma prévia em vídeo do ensaio fotográfico feito para a revista:

Clique nas miniaturas abaixo para conferir as fotos do ensaio: