Home Entrevistas traduzidas de Beyoncé para revistas Beyoncé é capa da revista britânica The Sunday Times, edição de Junho de 2011

Beyoncé é capa da revista britânica The Sunday Times, edição de Junho de 2011

Beyoncé por Ellen Von Unwerth para a Sunday Times. Clique na imagem para ver a capa em tamanho maior.
Beyoncé por Ellen Von Unwerth para a Sunday Times. Clique na imagem para ver a capa em tamanho maior.
Ela cantou para a família Obama na posse presidencial e, nesta noite, será a atração principal do Glatonbury. Beyoncé está no topo, mas, ela conta para Paul Flynn, ainda tem algo para falar às mulheres.

É uma tarde quente de junho no centro de Manhattan, em uma loft em Lafayette. Ainda assim, nem os 35 graus lá fora podem competir com o calor emitido por Beyoncé quando ela entra na sala. A estrela entra no set de filmagens, sua beleza emoldurada por cortinas pretas. Ela está vestindo shorts preateados, anéis com pedras exóticas que ela não sabe dizer exatamente quais são e saltos que a deixam da altura dos barbados da equipe de filmagem. A pele dela é a melhor que já vi em qualquer ser humano. Beyoncé está gravando um comercial para seu novo álbum, “4″.

O nome tem um significado maior do que apenas o fato de ser seu quarto álbum. “Eu casei no dia 4 de abril. Eu nasci no dia 4 de setembro. Meu marido nasceu no dia 4 de dezembro. Minha mãe nasceu no dia 4 de janeiro.” Significa que ela se sente abençoada. “Já ganhei bastante dinheiro em apostas no número 4″, ela ri, antes de se mostrar pura novamente: “Mas eu não tenho o costume de jogatina.”

Você não espera escândalos de Beyoncé. Você espera graciosidade, boas maneiras e espera descobrir como suas técnicas de performance e seu ótimo ouvido para clássicos a tornaram um ícone mundial do século XXI. Em contraste com sua presença de palco firme, ela é, na verdade, uma mulher discreta e gentil. Beyoncé Knowles disse à mãe, quando tinha nove anos de idade e assistia a uma apresentação de Whitney Houston cantando o hino americano (Star Spangled Banner) no Super Bowl, que ela faria aquilo algum dia. Tina Knowles riu educamente da ideia, mas lá estava Beyoncé, 19 anos depois, no dia que a Casa Branca se tornou negra, cantando durante a dança dos Obama, a pedido do presidente, durante o baile de posse. “Aquele casal emanava tanto poder, foi difícil de cantar,” ela diz. “Eu tive que manter a compostura e me lembrar ‘É melhor fazer isso direito, porque esse é um momento histórico. Esse é nosso legado. Não, esquece o seu legado, esse é o legado do Obama. Então vai lá e seja a pessoa que eles chamaram para cantar a música.’” Ela recuperou a calma quando voltou aos bastidores e pensou no que tinha acabado de fazer. “Eu testemunhei e estive muito perto de um dos melhores momentos na história da América.”

Nessa noite, ela será a atração principal do palco Pyramid no festival de Glastonbury, e ela não é complacente: “Estou muito, muito nervosa. Mas é bom saber que eu estou me arriscando.” Ela assistiu, há três anos, seu marido Jay-Z dominar o palco do que costumava ser um festival de rock predominantemente branco. “Sim, eu vi Jay… Jay Zee… Jay Zed conquistou Glastonbury. E eu também estava nervosa por ele por causa dessa controvérsia. Mas ele dominou tudo.”

Claramente entusiasmada pela experiência, ela empalidece só de ouvir a sugestão de pedir conselhos a ele. “Eu vi o conselho. Eu não tenho que pedi-lo. O melhor jeito é ver por você mesmo.” Além disso, ela tem uma elite de amigos veteranos do rock para contar com. “Falei com Bono e com Edge, que me deram dicas. E, é claro, Chris (Martin) me deu dicas, e a Gwyn (Paltrow) também, então, vamos ver.” Beyoncé não se importa se algum detalhe der errado no festival. “Eu estive nos bastidores e me diverti muito. Eu espero que chova. Quero tudo lamacento. Quero tirar o salto e colocar minhas botas. Quero ter certeza de que estou me entregando completamente. Tenho certeza de que será uma daquelas lembranças que levarei comigo até a morte.”

Veja as fotos do ensaio. As imagens foram, inicialmente, feitas para o álbum “4”, e aproveitados pela revista.

Aprimorando-se desde 1998, quando estourou com o hit das Destiny’s Child No, No, No, produzido por Wyclef Jean, Beyoncé se tornou uma das meia-dúzia de estrelas de verdade da atualidade. Agora, ela é melhor amiga de Chris Martin e Gwyneth Paltrow (as filhas delas a chamam de Titia B), pede ajuda a deuses do Rock e, com quase 30 anos, ela fez mais do que protagonizar as bem planejadas polêmicas de Madonna e Lady Gaga ao construir uma boa reputação – e com mais credibilidade.

“Aconteceu gradualmente,” ela diz. “Eu não acordei um dia e, um álbum, dois álbuns depois, disse ‘Agora sou uma estrela.’ Eu tive que lutar por isso, provavelmente mais do que qualquer artista que conheço. Na estrada com as Destiny’s Child, “nós viajávamos juntas. Nós dividíamos quartos, e disputávamos o telefone, mesmo com muitos singles em #1. Nós demos muito duro. Dezesseis horas por dia. Em tudo que eu fazia, eu me empenhava muito, até que meus pés estivessem sangrando. E sem reclamar. Eu acho que quanto mais você trabalha por algo, mais você colhe os frutos. Toda vez que penso em fazer alguma besteira ou algo que possa ser ruim para minha carreira, eu penso em tudo que eu construí e em todo o tempo que eu me sacrifiquei.”

No novo álbum, percebemos traços do rock-funk de Tina Turner; ela menciona Earth, Wind & Fire e os Chi-Lite como influências-chave. É o mais cru dela, o mais corajoso. “Eu me tornei uma pessoa mais corajosa,” ela explica. Beyoncé estudou sua própria musicologia, passando até mesmo 10 horas seguidas na internet procurando por novas sonoridades. Sua irmã, Solange, a apresentou aos Sleigh Bells. “Todos esses artistas indie e do underground são descobertos por minha irmã três, quatro anos antes que todos os descobram.”

Ela descobriu outro colaborador, Frank Ocean, ouvindo-o no carro de Jay-Z. “Depois da música, eu disse ‘Ok, quem é esse? Porque eu quero ele aqui para ontem.’” Ela gosta da emoção de trabalhar com novos artistas. “Me deixa ansiosa. Eu amo dar oportunidades às pessoas, porque alguém um dia me deu oportunidades.”

Ela não se preocupa com o fato de alguns de seus parceiros de trabalho do sexo masculino não entenderem a mensagem de suas músicas. Porque ela quebrou outra regra das artistas pop femininas ao dizer às mulheres, e não aos homens, como elas são demais. “Eu tenho estrogênio suficiente para influenciar meus compositores do sexo masculino, de verade,” ela diz. “No final de cada sessão de gravação, eles dizem ‘Ok, eu já entendi! Agora eu sei como é ser uma mulher.’ Estou sempre representando as garotas. Você pode ter certeza disso.”

A missão da vida de Beyoncé é fazer as mulheres se sentirem bem consigo mesmas. Seus singles, desde Say My Name, de 1999, até Run the World, deixam isso bem claro. É uma pena que, apenas cincos anos depois dela gravar Independent Women, as Pussycat Dolls, que ficaram famosas por seu estilo de dançarinas de boate, tenham estragado sua missão ao lançar a música “Você não queria que sua namorada fosse gostosa como eu?”.

“Quando mulheres não tem amigos, tenho medo delas,” Beyoncé diz. “Eu cresci cercada de mulheres. Eu acredito que nós podemos ensinar muito umas às outras. Estou sempre pensando em como não somos nada egoístas e sobre as coisas que precisamos ouvir e sobre como é difícil ser mulher. Eu tento escrever músicas que trarão à tona o melhor em cada uma e nos manterão unidas. Coloque um anel no dedo (put a ring on it)? É um ótimo jeito de passar a mensagem sem gritar psicoticamente ‘Case comigo!’ Sabe? Às vezes você engorda um ou dois quilos, às vezes mais. Que seja. Às vezes você tem que descobrir a sua beleza. Então, Bootylicious. Nas minhas viagens, pude ver como Independent Women foi importante para as mulheres e como elas se tornaram mais fortes ao cantar Irreplaceable. Muçulmanas usando burcas, mulheres que já tinham aceitado o fato de não poderem ter nenhum objetivo de vida. Quando elas vem até mim e dizem ‘Eu tive que ouvir suas músicas escondida, mas elas me fizeram me sentir mais forte e agora eu estou juntando dinheiro e vou embora daqui,’ isso me faz sentir que minha missão é maior do que eu jamais imaginei. Então continuarei a escrever essas músicas que dão poder às mulheres.

Depois de Glastonbury, depois de “4″, Beyoncé será dirigida por Clint Eastwood no remake dele de A Star Is Born. Como é? “Eu acho que talvez uma estrela tenha nascido. Eu nasci para fazer o que eu faço. É muito natural. Algumas coisas que eu faço, ninguém me ensinou. Ninguém pode te ensinar. É só… você é isso. Eu sinto que todos somos estrelas.”

“4″, de Beyoncé, será lançado amanhã pela Sony.

DETALHES TÉCNICOS:
Revista: The Sunday Times
Fotos: Ellen Von Unwerth (Promoshoot de “4″)
Edição: Junho de 2011
Resumo: Beyoncé fala sobre “4″, “A Star is Born” e mais.
Tradução e adaptação: Roberta Lessa